Posts Tagged ‘administração pública’

Um novo ano, um novo Recife: dez desejos para o futuro próximo

dezembro 31, 2012

O novo ano de 2013 está à porta. E com ele uma nova administração municipal para a cidade do Recife. Aqui coloco dez desejos. Meus desejos individuais como habitante dessa cidade onde nasci e que me proporcionou grandes momentos. Desejos para o novo prefeito, vice-prefeito – GERALDO JULIO e LUCIANO SIQUEIRA – e sua equipe mas, e principalmente, desejos para a cidade e sua gente.

Em primeiro lugar LIMPEZA. Antes de partirmos para cuidarmos dos ratos e baratas, partamos para a limpeza. Limpeza urbana: das ruas, das calçadas, da planície e dos morros. Junto com a limpeza das nossas casas, cuidemos da limpeza dos espaços públicos. Que a Prefeitura (e a Emlurb) coloque caçambas estacionadas em pontos estratégicos para que a gente não acumule lixo nas calçadas e ruas. Que, de jeito algum, joguemos lixo nos nossos canais e rios. Pobre mas limpa!

Em segundo lugar SANEAMENTO. Não adianta falar de um rio Capibaribe ambientalmente sustentável se não falarmos de saneamento básico: um sistema de esgoto (canos enterrados, em geral de concreto) que conduzam o esgotamento sanitário das edificações (residenciais, comerciais e industriais) para sistemas de filtragem e limpeza antes de jogar os resíduos no nosso principal rio. O Capibaribe, e os seus canais afluentes, serão tão limpos quanto for o progresso na implantação do saneamento na cidade. E não vamos misturar os sistemas de esgotameto pluvial com o sanitário. Hoje, certamente, muito esgoto é jogado dentro do esgotamento pluvial. Dizer que vamos limpar o Capibaribe sem endereçar a questão do saneamento básico é balela.

Em terceiro lugar ACESSIBILIDADE. Calçadas, sinalização, acesso a transporte público pensados em termos de pessoas idosas e especiais. Isso requer cuidado com espaços públicos como praças, calçadas, prédios públicos, mas também eventos, serviços ao cidadão (presenciais e virtuais) e de forma que esses cidadãos sejam considerados (foco no cidadão como usuário da cidade).

Em quarto lugar MOBILIDADE E TRANSPORTE PÚBLICO. A mobilidade na cidade do Recife piora a cada dia. O estrangulamento está próximo. Diretrizes políticas e ações práticas são necessárias. Praticamente nenhuma evolução no sistema de transporte público é percebida nos últimos 35 anos. É preciso expandir o sistema de corredores de ônibus. É preciso expandir o metrô (uma expansão a cada 20 anos não basta!). É preciso investir numa melhor informação ao usuário usando tecnologia da informação (as principais paradas de ônibus devem ser um hub de informação sobre linhas e horários). É preciso termos ônibus conectados e com informação online a bordo sobre o status da sua linha e da viagem. É preciso termos um melhor serviço prestado pelo motorista e cobrador (ou começar a promover cobradores a motoristas, automatizando a cobrança). É preciso ampliar o sistema de ciclo-faixas e implantar ciclo-vias. É preciso termos serviços de ônibus com ar condicionado. E, se preciso for, fazer largas concessões de linhas com participação de empresas de todo o Brasil, para termos mais concorrência entre as empresas provedoras.

Em quinto lugar PLANEJAMENTO URBANO. Como anda o plano diretor do Recife? Que áreas verdes queremos preservar e são inegociáveis? O que está acontecendo com o Parque do Caiara? Desistimos dele? E a Tamarineira? E o Parque de Exposições do Cordeiro? E a Fábrica da Macaxeira? E a Fábrica da Tacaruna? E parques lineares ao longo dos nossos canais? E a pressão das construtoras por mais espaço vertical? Quais os gabaritos da cidade? Estão sendo respeitados?

Em sexto lugar SINALIZAÇÃO E ILUMINAÇÃO. A sinalização de navegação foi melhorada e hoje pode ser considerada regular (mas precisamos ir para o bom, que ainda está distante do ótimo ou do excelente). Uma implantação mais sistemática das placas de ruas pode ser um bom começo. A iluminação já foi bem melhor. Aqui regredimos. Muitas lâmpadas queimadas e áreas escuras por toda cidade.

Em sétimo lugar PUBLICIDADE FUNCIONAL. Que a nova administração não gaste rios de recursos públicos dizendo o que está fazendo. Se estiver fazendo a própria imprensa vai fazer essa divulgação. Mas, se esse direcionamento for difícil, que a publicidade seja orientada à comunicação funcional com a cidade e seus habitantes: mantenha as ruas limpas, respeite a faixa do pedestre, exerça a posse responsável de animais, conheça o endereço do seu posto de saúde, etc, são exemplos de temas para campanhas publicitárias.

Em oitavo lugar TODAS AS RUAS DA CIDADE PAVIMENTADAS. Que seja colocado em marcha um programa para calçar (asfaltar) TODAS as ruas da cidade. O plano deve ter metas específicas com a quantidade e identificação das ruas que serão calçadas em cada um dos quatro anos em que a nova administração estará responsável pela cidade. Recife tem 12 mil ruas. Cerca de 300 foram pavimentadas na última gestão. Será que a administração que agora assume não poderia pavimentar 1.200 ruas em quatro anos (300 por ano)?

Em nono lugar  PREFEITO, VICE-PREFEITO E SECRETÁRIOS NAS RUAS. Que os principais administradores da cidade circulem pela cidade, andem pelas ruas e procurem ver se algo está mudando. Que não fiquem restritos aos seus gabinetes sem desenvolver uma sensibilidade do que de fato, na prática, está acontecendo e mudando na cidade.

Em décimo lugar ESPÍRITO PÚBLICO DE SERVIR E DE EQUIPE. Que haja um trabalho INTEGRADO E ARTICULADO dos que fazem a administração municipal. Trabalho em equipe. Com muita competência na gestão: planejando, fazendo, monitorando e melhorando sempre o ciclo de gestão. Com grande capacidade de propor projetos (nas escalas estadual, federal ou internacional) e executá-los. E, sempre, nunca perdendo de vista o grande objetivo de tornar a cidade do Recife um lugar melhor para viver, visitar ou investir.

Sucesso Recife! Feliz 2013!

 

Anúncios

O Acidente do Caminhão de Melancia e os Presidenciáveis Brasileiros

agosto 23, 2010

“Caminhão tomba e população saqueia carga de melancia em SP”. Essa foi a chamada usada para a notícia publicada no portal G1. Tratava-se de acidente envolvendo um caminhão carregado com melancias que tombou em cima de um carro, na manhã de 20 de agosto passado, no km 78 da Rodovia Fernão Dias, em Guarulhos, na Grande São Paulo. A rodovia, ainda segundo o G1, ficou interditada nos dois sentidos, das 10h25 às 10h59. Quatro pessoas ficaram feridas e foram socorridas pelo Corpo de Bombeiros para hospitais da região. Moradores dos bairros próximos saquearam a carga. A concessionária da rodovia informou, por volta das 15h20, que a pista estava limpa e não havia mais lentidão no local.

O que os presidenciáveis pensariam sobre o acidente? Dilma, possivelmente, relembraria o papel importante do programa Bolsa Família, usando o fato como demonstração de que o programa deve continuar (o saque, apesar de ilegal, reflete uma necessidade básica do povo – saciar a fome – e que foi uma preocupação constante do governo Lula). Serra, por sua vez, diria que o programa Bolsa Família não está funcionando a contento, necessitando ser aperfeiçoado, lamentando ainda o prejuízo econômico decorrente do fato. Marina, levantaria a bandeira da educação como forma de combater o saque, que certamente é mais vergonhoso do que o acidente em si. Finalmente, Plínio, rompendo com o pensamento dos três, atribuiria ao tratamento desigual dado pelos governos ao povo, a causa única do acidente.

O acidente (fato ou fenômeno sob análise) pode oferecer, no entanto, uma interpretação mais aprofundada e menos simplista, a partir da qual ações podem ser delineadas na direção de evitá-lo (acidentes servem, antes de qualquer coisa, para aprendermos a evitá-los). Vejamos.

O fato sob observação é o acidente: um caminhão tombou. Componentes do fato: quatro pessoas foram feridas; uma importante rodovia federal ficou interditada (durante 34 minutos); dois veículos foram danificados (o caminhão e o carro); a carga de melancia foi perdida; a carga de melancia foi saqueada (pela população). Atores (pessoas, grupos, organizações) envolvidos: o motorista do caminhão; o motorista do carro; os feridos; a “população” (moradores dos bairros próximos); o Corpo de Bombeiros; a concessionária da rodovia; os hospitais da região.

Outra forma de estruturar o fato é examinar a relação de causa e efeito (muito pertinente em casos de acidente): a causa (ou causas) do acidente; os efeitos (diretos e indiretos) decorrentes do mesmo. Uma análise de causa e efeito mais detalhada pode ser realizada para cada um dos componentes do fato: o que causou o ferimento nas quatro pessoas e qual a efeitos dos ferimentos; o que provocou a interdição por 34 minutos e quais as conseqüências; qual a causa da perda da carga e seu efeito; e, finalmente, porque a população saqueou a carga e qual a conseqüência desse componente do fato.

A partir da análise inicial acima pode-se iniciar a definição das ações que irão, após a sua realização, diminuir as ocorrências de fatos como o analisado. No entanto, um componente secundário no fato analisado (e que pode até passar despercebido pelo observador incauto) pode ser de extrema importância e, o mais difícil de lidar do ponto de vista de ações que o minimizem (solucionem): o saque da carga. O que este componente do fato principal pode revelar? Que a população estava com fome? Que o motorista do caminhão foi omisso? Que não houve policiamento adequado e rápido para evitar o saque? Que se tratava de um oportunismo contextual (“vou pegar umas melancias para vender e ganhar uns trocados”)? Que a população agiu ilegalmente? Que o direito de propriedade não é respeitado? Este último questionamento – em relação a um componente secundário do fato voltamos a enfatizar – pode, no entanto, requerer maior dedicação e energia em termo das suas ações (o que certamente pode requerer um esforço que vai além de um governo ou dois, podendo levar até gerações para pararmos de ver caminhões acidentados sendo saqueados).

As campanhas dos atuais candidatos a presidente do Brasil, refletidas no debate eleitoral, nos parecem vazias e por demais simplificadas. O Brasil tem um potencial enorme e tem uma grande perspectiva de passar para o patamar dos países desenvolvidos. No entanto, problemas básicos, que podem envolver questões culturais (que envolvem fatores econômicos, sociais e políticos) requerem ações que terão seus efeitos no longo prazo (que extrapolam uma ou duas administrações). Analisar corretamente as diversas “cargas de melancia tombadas” é um grande desafio. Análises equivocadas serão desdobradas em ações equivocadas. E o Brasil não tem mais tempo para ações equivocadas.

Outras análises e interpretações são muito bem vindas.