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O Acidente do Caminhão de Melancia e os Presidenciáveis Brasileiros

agosto 23, 2010

“Caminhão tomba e população saqueia carga de melancia em SP”. Essa foi a chamada usada para a notícia publicada no portal G1. Tratava-se de acidente envolvendo um caminhão carregado com melancias que tombou em cima de um carro, na manhã de 20 de agosto passado, no km 78 da Rodovia Fernão Dias, em Guarulhos, na Grande São Paulo. A rodovia, ainda segundo o G1, ficou interditada nos dois sentidos, das 10h25 às 10h59. Quatro pessoas ficaram feridas e foram socorridas pelo Corpo de Bombeiros para hospitais da região. Moradores dos bairros próximos saquearam a carga. A concessionária da rodovia informou, por volta das 15h20, que a pista estava limpa e não havia mais lentidão no local.

O que os presidenciáveis pensariam sobre o acidente? Dilma, possivelmente, relembraria o papel importante do programa Bolsa Família, usando o fato como demonstração de que o programa deve continuar (o saque, apesar de ilegal, reflete uma necessidade básica do povo – saciar a fome – e que foi uma preocupação constante do governo Lula). Serra, por sua vez, diria que o programa Bolsa Família não está funcionando a contento, necessitando ser aperfeiçoado, lamentando ainda o prejuízo econômico decorrente do fato. Marina, levantaria a bandeira da educação como forma de combater o saque, que certamente é mais vergonhoso do que o acidente em si. Finalmente, Plínio, rompendo com o pensamento dos três, atribuiria ao tratamento desigual dado pelos governos ao povo, a causa única do acidente.

O acidente (fato ou fenômeno sob análise) pode oferecer, no entanto, uma interpretação mais aprofundada e menos simplista, a partir da qual ações podem ser delineadas na direção de evitá-lo (acidentes servem, antes de qualquer coisa, para aprendermos a evitá-los). Vejamos.

O fato sob observação é o acidente: um caminhão tombou. Componentes do fato: quatro pessoas foram feridas; uma importante rodovia federal ficou interditada (durante 34 minutos); dois veículos foram danificados (o caminhão e o carro); a carga de melancia foi perdida; a carga de melancia foi saqueada (pela população). Atores (pessoas, grupos, organizações) envolvidos: o motorista do caminhão; o motorista do carro; os feridos; a “população” (moradores dos bairros próximos); o Corpo de Bombeiros; a concessionária da rodovia; os hospitais da região.

Outra forma de estruturar o fato é examinar a relação de causa e efeito (muito pertinente em casos de acidente): a causa (ou causas) do acidente; os efeitos (diretos e indiretos) decorrentes do mesmo. Uma análise de causa e efeito mais detalhada pode ser realizada para cada um dos componentes do fato: o que causou o ferimento nas quatro pessoas e qual a efeitos dos ferimentos; o que provocou a interdição por 34 minutos e quais as conseqüências; qual a causa da perda da carga e seu efeito; e, finalmente, porque a população saqueou a carga e qual a conseqüência desse componente do fato.

A partir da análise inicial acima pode-se iniciar a definição das ações que irão, após a sua realização, diminuir as ocorrências de fatos como o analisado. No entanto, um componente secundário no fato analisado (e que pode até passar despercebido pelo observador incauto) pode ser de extrema importância e, o mais difícil de lidar do ponto de vista de ações que o minimizem (solucionem): o saque da carga. O que este componente do fato principal pode revelar? Que a população estava com fome? Que o motorista do caminhão foi omisso? Que não houve policiamento adequado e rápido para evitar o saque? Que se tratava de um oportunismo contextual (“vou pegar umas melancias para vender e ganhar uns trocados”)? Que a população agiu ilegalmente? Que o direito de propriedade não é respeitado? Este último questionamento – em relação a um componente secundário do fato voltamos a enfatizar – pode, no entanto, requerer maior dedicação e energia em termo das suas ações (o que certamente pode requerer um esforço que vai além de um governo ou dois, podendo levar até gerações para pararmos de ver caminhões acidentados sendo saqueados).

As campanhas dos atuais candidatos a presidente do Brasil, refletidas no debate eleitoral, nos parecem vazias e por demais simplificadas. O Brasil tem um potencial enorme e tem uma grande perspectiva de passar para o patamar dos países desenvolvidos. No entanto, problemas básicos, que podem envolver questões culturais (que envolvem fatores econômicos, sociais e políticos) requerem ações que terão seus efeitos no longo prazo (que extrapolam uma ou duas administrações). Analisar corretamente as diversas “cargas de melancia tombadas” é um grande desafio. Análises equivocadas serão desdobradas em ações equivocadas. E o Brasil não tem mais tempo para ações equivocadas.

Outras análises e interpretações são muito bem vindas.

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